Cia dos Imaginários ressalta liberdade de adaptar clássico em Sobre a Tempestade

17/03/2014 | Publicado por Ines | Cultura, Destaque

Destacando o trabalho do ator e dos elementos visuais na construção das cenas, a Cia dos Imaginários, sob a direção de René Piazentin, leva ao palco a livre interpretação da última obra de Shakespeare. Montagem mostra que autor, mesmo depois de 450 anos do seu nascimento, continua atual.

Depois de adaptar obras literárias (Dom Quixote, de Miguel de Cervantes; Niklasstrasse, 36, a partir de A Metamorfose, de Franz Kafka, e Uma Alice Imaginária, inspirado em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll), a Cia dos Imaginários exibe um novo olhar sobre clássico de William Shakespesare (1564-1616). Com o título de Sobre a Tempestade, a obra do dramaturgo inglês torna-se ponto de partida para o grupo abrir desdobramentos e possibilidades por meio de comentários, novas cenas e o cruzamento de referências. A estreia acontece dia 21 de março, sexta-feira, às 21 horas, no Teatro Alfredo Mesquita.

A peça conta a história de Próspero, duque de Milão, que usa poderes mágicos para que seus inimigos naufraguem na ilha onde aportou há doze anos. Com a ajuda de Ariel, um espírito do ar, tudo parece fazer parte de um grande espetáculo, como um diretor e seu assistente. Usando de sua arte, ele ocupa a ilha, escraviza o filho herdeiro, controla a tempestade, manipula a vida do irmão Antônio, e dos que o acompanham. Faz com que os náufragos passem por diversos momentos de provações para, enfim, absolvê-los.

René Piazentin acredita que a noção de ‘perdão’ tratada na peça é um tema importante para ser discutido atualmente, em meio a tanto medo e ódio, manifestados por motivos distintos. Com a humanidade passando por momentos tão difíceis, um pouco de tolerância, respeito e quebra de preconceitos é fundamental para amenizar ânimos. Seguindo esse pensamento, o diretor acrescentou um pato de borracha à cena, um elemento lúdico, resgate da infância e da inocência

Em tempos conturbados, em que pessoas comuns fazem justiça com as próprias mãos, Piazentin oferece possibilidades de recomeços: “Não é o momento de quebrar o ciclo de vingança? Até que ponto o olho por olho vale a pena?”, questiona.

Na montagem, a figura dos espíritos (presente em diversos momentos como executores, sempre liderados por Ariel) é entendida como uma função, e não só uma caracterização. Os próprios atores, quando não participantes da ação central, ao interagirem em contraplano, revelam os mecanismos simbólicos da cena, conduzindo a ação. No palco, ganham um sentido de coro, de coletivo, mas sem identidade.

O grupo não usa o texto original, mas preserva a fábula, sendo utilizada para o desenvolvimento de outras perspectivas. A Cia. preza, principalmente, pela liberdade de adaptar um clássico, da mesma forma como o próprio Shakespeare fazia: apropriava-se de um conto popular, inseria outros elementos e tinha uma nova história, um novo olhar sobre algo. É o que o diretor René chama respeitosamente de “tirar Shakespeare do pedestal”.

Os diversos experimentos na encenação surgiram a partir das pesquisas de doutorado do diretor René Piazentin, na ECA-USP. Em Sobre a Tempestade, isso se reflete no texto original, suprimido e adaptado em diversas partes, processo que o diretor chama de “parto às avessas”.

“Pegamos a obra na totalidade e vamos tirando coisas para chegar em outro lugar”, comenta o diretor, que diz preferir transformar a dramaturgia em um roteiro de encenação. “É um processo estimulante e dolorido, porque exige todo um desapego, uma abertura para novas possibilidades. Tem um elemento colaborativo forte e depende da dedicação de todos, talvez até mais do que quando temos uma escrita pronta, definida, desde o primeiro dia de ensaio”, afirma.

O texto acompanhou o diretor por alguns anos, mas somente em 2000, na sua conclusão do curso de Direção da ECA, conseguiu encenar A Tempestade, que entrou em cartaz no próprio Alfredo Mesquita, no segundo semestre do mesmo ano. Depois, em 2008, dirigiu uma turma de alunos do Teatro Escola Macunaíma. Na montagem atual, inseriu um olhar mais maduro, não no sentido da erudição, mas da liberdade, motivo para ser chamada de Sobre a Tempestade.

A Cia transforma o estilo do autor clássico (de aspecto literário e poético) em uma linguagem cênica que valoriza mais a construção de imagens e símbolos do que o aspecto verbal, mesmo tratamento dado aos espetáculos anteriores. A iluminação, repleta de recortes de cenas e construções de atmosferas, faz praticamente todo o papel do cenário. O figurino, assinado por Vanussa Costa, brinca com a figura do náufrago, de marujos, inserindo galochas, roupas listradas e capas de chuva amarelas, típicas de trabalhadores do mar.

Tido como o último trabalho escrito integralmente por William Shakespeare, a obra ainda se mostra atual, mesmo depois das diversas leituras e interpretações ao longo dos séculos.

Em Sobre a Tempestade, o diretor faz questão de frisar que os bons resultados só foram obtidos pelo trabalho e esforço conjunto de todos os envolvidos. “A presença deles, exatamente deste grupo e as pessoas que estão inseridas em todo o processo, foram essenciais para chegar a esse resultado”, finaliza.

Sobre a Cia. dos Imaginários

A Cia. dos Imaginários surgiu em 2007, a partir da montagem de Quixote, espetáculo inspirado na obra de Miguel de Cervantes, com temporadas no Centro Cultural São Paulo, no Teatro Paulo Eiró e Teatro Denoy de Oliveira, passando também por cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais.

Esta produção orientou a pesquisa de linguagem desenvolvida nos projetos posteriores, privilegiando o trabalho do ator e dos elementos visuais na construção das cenas. A continuidade desta investigação deu-se com os estudos cênicos de Hamlet-Zero (ensaios abertos no Teatro Macunaíma, em 2007) e Sonata dos Espectros (ensaio aberto no teatro Viga, em 2009), momento em que houve uma união dos elementos visuais à palavra. Em paralelo aos experimentos, foram acrescentados os estudos do diretor René Piazentin, na época, doutorando na ECA-USP.

O projeto seguinte, Niklasstrasse, 36, adaptação de A Metamorfose, de Franz Kafka, estreou no Teatro Cacilda Becker em julho de 2011, com temporada no Teatro Commune em fevereiro de 2012 e em agosto, no Teatro Sérgio Cardoso. Em outubro de 2012, a Cia. dos Imaginários apresentou no Teatro Commune,­ em São Paulo, Uma Alice Imaginária, texto e direção de René Piazentin, inspirado na obra de Lewis Carroll. A peça é uma trajetória simbólica de descobertas, em que a personagem título reencontra fragmentos de sua própria história esquecida.

No ano de 2013, o espetáculo cumpriu temporadas no Teatro Cacilda Becker (feveiro e março), novamente no Teatro Commune (maio e junho) e Espaço Parlapatões (outubro). Sobre a Tempestade, inspirada em A Tempestade, de William Shakespeare, tem estreia prevista para 21 de março de 2014, no Teatro Alfredo Mesquita.

Para roteiro

Sobre a Tempestade – De 21/03 a 20/04. Sexta e sábado às 21h e domingo às 19h. Endereço: Teatro Alfredo Mesquita – Avenida Santos Dumont, 1770 – Santana. CEP 02012-010. Telefone: (11) 2221-3657. Duração: 60 minutos. Classificação: livre. Ingressos: Inteira: R$ 10,00 / Meia: R$ 5,00.

Capacidade: 198 lugares. Estacionamento: Sim.

Ficha Técnica: Direção e dramaturgia – René Piazentin. Assistência de Direção – Carolina Loureiro e Camila Nardoni. Cenário, luz e trilha – René Piazentin. Figurinos – Vanusa de Souza Costa. Preparação de Atores – Fernanda Gama. Elenco – Alexandre Passos, Aline Baba, Kedma Franza, Luana Frez, Marcella Piccin, Marina Patari, Renata Weinberger, Rodrigo Sanches e Waldir Medeiros. Produção – Núcleo Imaginário de Produção e F Gama Produções LTDA-ME. Duração – 70 minutos. Recomendação – Livre. Gênero – Fábula dramática. Modalidade – Adulto.

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